terça-feira, 16 de março de 2010

Bi

Para a minha mãe, cujo espírito aventureiro sempre me inspirou a seguir em frente.

Há muitos, muitos anos que aquelas criaturinhas viviam entre as árvores, saltitando de pedra em pedra. Para os demais eles não eram mais do que fantasias, fadas ou gnomos, como muitos lhe chamam, fazendo sorrir os mais novos mas rapidamente recolhidos naquele recanto da consciência a que chamamos imaginação. No entanto, há uma história que não pode deixar de ser contada e não será esquecida tão cedo, pelo menos não enquanto existirem sonhos no mundo, e essa é a história da Bi, a Ruiva, a atrevida que procurou neste mundo e no outro pelo maior tesouro de todos.
Desde criança que a Bi demonstrava ser diferente dos seus companheiros. Dormia nas folhas sem medo do orvalho da manhã, tinha debates acesos com as flores, subia no dorso dos beija-flor para ver os céus e até, contra todas as normas dos membros da sua raça, travava conhecimento regularmente com todos os bichos recém-chegados à floresta. Foi exactamente através dum encontro destes que começa a nossa história.
Um dia, um circo ambulante de esquilos causa tanta azáfama no bosque que o mocho teve que vir impor a ordem. Nunca antes diversão assim se tinha sentido por aquelas paragens. Como não podia deixar de ser, os esquilos não puderam deixar de reparar naquela rapariga de cabelos cor de fogo que se ria com vontade das cabriolas. Sem mais delongas, convidaram-na a acompanhá-los e, ainda mais facilmente, Bi aceitou de bom grado, para espanto dos seus pais.
Essa jornada reservou-lhe muitas surpresas. Afeiçoou-se às tartarugas que conheceu na praia e desenvolveu um talento para ensinar os mais novos. Era um deleite ver os bebés a seguirem os seus movimentos embevecidos, contudo Bi sentia necessidade de aperfeiçoar o seu trabalho todos os dias e nunca se deixar por vencida. Graças ao seu esforço, a tartaruga velha reconheceu que ela seria a melhor escolha para ajudar outros como ela a adaptar-se à vida fora do seu meio.
Numa noite de luar, Bi ouviu da boca dum sábio ancião o segredo da gruta... Reza a história que um gigante feroz vigia a porta para um outro mundo, um mundo encantado na maior gruta da praia. Nunca ninguém conseguiu derrotar o guardião e, para o fazer, só o mais corajoso guerreiro sairá vencedor e, mesmo esse, só com o auxílio duma arma poderosa escondida nas profundezas do mar. Durante anos Bi procurou, procurou... Apaixonou-se perdidamente por um sereio chamado Zé e dele teve uma filha, Bárbara, mas, quando a lua chamou, elas seguiram caminho ainda que só com a roupa do corpo e uma pena, presente da grande lula.
Certa vez, o tempo chegou e lá estava ela na gruta temida. Dentro da gruta, um tigre descomunal bufava, arranhava e mordia. Bi avança de pena em punho para o atacar mas... azar dos azares! com a pata o tigre atinge-a num só golpe. Bi levanta-se, sacode o pó das roupas e avança de novo. O tigre encara-a mas, quando sente a carícia doce da pena, cai desarmado, transformando-se num gato e acompanha-a pela porta aberta. Ainda hoje, Bi, Bárbara e o gato vivem no palácio da gruta, o mais bonito palácio que se possa imaginar, onde têm tudo o que precisam. Um herói não se mede pela força do braço, querido leitor, mas pela força do seu coração.

05-12-2009

Sem comentários:

Enviar um comentário