segunda-feira, 29 de março de 2010

Natureza minha

Sinto-me borboleta tonta

Inebriada pelo cheiro de pedra molhada

Sou ramo onde repousa a catatua

Sou musgo verde de um tronco rugoso

Tornei-me a brisa que aspira o ar da terra

Remexida pelo passo estugado

De um potro selvagem

Que lá deu o primeiro passo


E de pequena folha, indefesa

Transformei-me em raposa esquiva

Que recolhe as crias do ninho

E ensina-os que nada é de fiar

Sou lebre escondida na floresta

Sem precisar de nada nem de ninguém

E sou, mais do que tudo, formiguinha

Com tantos projectos que fico febril

– Neste buraco vigiado pelo luar –

Ofegante de ser não uma

Mas mil

terça-feira, 16 de março de 2010

Bi

Para a minha mãe, cujo espírito aventureiro sempre me inspirou a seguir em frente.

Há muitos, muitos anos que aquelas criaturinhas viviam entre as árvores, saltitando de pedra em pedra. Para os demais eles não eram mais do que fantasias, fadas ou gnomos, como muitos lhe chamam, fazendo sorrir os mais novos mas rapidamente recolhidos naquele recanto da consciência a que chamamos imaginação. No entanto, há uma história que não pode deixar de ser contada e não será esquecida tão cedo, pelo menos não enquanto existirem sonhos no mundo, e essa é a história da Bi, a Ruiva, a atrevida que procurou neste mundo e no outro pelo maior tesouro de todos.
Desde criança que a Bi demonstrava ser diferente dos seus companheiros. Dormia nas folhas sem medo do orvalho da manhã, tinha debates acesos com as flores, subia no dorso dos beija-flor para ver os céus e até, contra todas as normas dos membros da sua raça, travava conhecimento regularmente com todos os bichos recém-chegados à floresta. Foi exactamente através dum encontro destes que começa a nossa história.
Um dia, um circo ambulante de esquilos causa tanta azáfama no bosque que o mocho teve que vir impor a ordem. Nunca antes diversão assim se tinha sentido por aquelas paragens. Como não podia deixar de ser, os esquilos não puderam deixar de reparar naquela rapariga de cabelos cor de fogo que se ria com vontade das cabriolas. Sem mais delongas, convidaram-na a acompanhá-los e, ainda mais facilmente, Bi aceitou de bom grado, para espanto dos seus pais.
Essa jornada reservou-lhe muitas surpresas. Afeiçoou-se às tartarugas que conheceu na praia e desenvolveu um talento para ensinar os mais novos. Era um deleite ver os bebés a seguirem os seus movimentos embevecidos, contudo Bi sentia necessidade de aperfeiçoar o seu trabalho todos os dias e nunca se deixar por vencida. Graças ao seu esforço, a tartaruga velha reconheceu que ela seria a melhor escolha para ajudar outros como ela a adaptar-se à vida fora do seu meio.
Numa noite de luar, Bi ouviu da boca dum sábio ancião o segredo da gruta... Reza a história que um gigante feroz vigia a porta para um outro mundo, um mundo encantado na maior gruta da praia. Nunca ninguém conseguiu derrotar o guardião e, para o fazer, só o mais corajoso guerreiro sairá vencedor e, mesmo esse, só com o auxílio duma arma poderosa escondida nas profundezas do mar. Durante anos Bi procurou, procurou... Apaixonou-se perdidamente por um sereio chamado Zé e dele teve uma filha, Bárbara, mas, quando a lua chamou, elas seguiram caminho ainda que só com a roupa do corpo e uma pena, presente da grande lula.
Certa vez, o tempo chegou e lá estava ela na gruta temida. Dentro da gruta, um tigre descomunal bufava, arranhava e mordia. Bi avança de pena em punho para o atacar mas... azar dos azares! com a pata o tigre atinge-a num só golpe. Bi levanta-se, sacode o pó das roupas e avança de novo. O tigre encara-a mas, quando sente a carícia doce da pena, cai desarmado, transformando-se num gato e acompanha-a pela porta aberta. Ainda hoje, Bi, Bárbara e o gato vivem no palácio da gruta, o mais bonito palácio que se possa imaginar, onde têm tudo o que precisam. Um herói não se mede pela força do braço, querido leitor, mas pela força do seu coração.

05-12-2009

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Incompleta

I. Diálogo entre Sofia e a mãe

(Quarto, 8 da manhã)



- O que é que estás aqui a fazer? Devias estar a trabalhar. Estás a desperdiçar o teu potencial, Sofia.



- Uma pessoa tem que descansar às vezes.



- Pensas que Mozart descansava? Ele tinha partituras completas antes dos cinco anos. Quero que toques os acordes que te pedi, vamos, mexe-te, estás aí e não fazes nada, se conseguisses acabar a sequência então podias dormir treze horas por dia! (Afasta os lençóis e Sofia assume a posição de feto) Deixas-me aqui, nem queres saber, só queres sair com os teus amigos estúpidos, esquecer tudo o que te ensinei.



- Não sou tão boa como pensas, mãe.



- Além disso o cão não pára de ganir, tem que ir à rua e está a pôr-me louca, não me deixa trabalhar.



- Hoje é terça-feira, é a tua vez.



(Sofia fica confusa)



- Hoje é terça-feira.



(Abre os olhos, está no quarto de sua casa, não no quarto da casa onde vivia com a mãe)



II. Diálogo entre Sofia e Maria do Carmo/Gonçalo entra em cena

(Corredor da Universidade, onze da manhã)



- Não compreendo os teus alunos. Não ouvem nada do que eu lhes digo. Alterei aqui esta nota mas eles não seguem a melodia. O que é que achas, querida? (Mostra-lhe a pauta) Se calhar vou pedir ao Roger para me trazer uma música diferente, não está a resultar esta.



- Nós estávamos a trabalhar numa no ano passado. (Sofia pára para pensar mas não consegue lembrar-se qual)



- Ai sim? (Faz um ar de entendimento e puxa-a pelo braço) Não te preocupes com isso. Quero que conheças uma pessoa. É um músico muito conceituado, estudou Terapia Musical e Instrumentos de Sopro e vai trabalhar connosco este semestre.



(Entram por uma porta à esquerda com um pequeno letreiro: SECRETARIA)



- Gonçalo Tavares, muito prazer. Esta é a professora Sofia Fernandes. Gonçalo, Sofia. Sofia, Gonçalo.



- Muito prazer. (Dão as mãos num passou-bem)



- A sua mãe é um ídolo para mim. Influenciou toda a minha educação musical desde os anos 80.



- Uh, obrigada.



- Daniela, já tens as fotocópias que te pedi? Sim, obrigada. Sofia... O Gonçalo vai dar aulas no auditório aos alunos dos cursos livres. Gostaria que o ajudasses num projecto muito especial. Ele depois explica-te tudo sobre isso. (Maria do Carmo puxa Gonçalo para um canto onde não podem ser ouvidos)



- Já o informaram sobre tudo, não já?



- A que se refere?



- Bom, ela sofre duma disfunção cognitiva desde a morte da mãe. Recusa acompanhamento clínico, medicamentos, hipnose... Não deve ser perturbada nem lhe é permitida a direcção da orquestra com que o Gonçalo vai trabalhar. Encontra-se a dar aulas e a participar em pesquisas e é tudo.

(Gonçalo olha para Sofia)

- Muito bem.

III. Diálogo entre Sofia e Gonçalo
(Retiro no campo - Exterior, 10 da manhã)

(Sentados ao pé da água)

- Então...Que projecto é esse?

- Basicamente, é um estudo da reacção dos alunos à música. Diferentes pessoas reagem de modo distinto a notas diferentes. Quero pô-los num ambiente tranquilo...tal e qual este... e, através de aparelhos de medição do batimento cardíaco, tensão arterial e reacção hormonal, vê-los a sentir as notas. O objectivo é saber que notas inspiram em média sentimentos negativos, sentimentos positivos... É um método que tem vindo a obter resultados interessantes em bebés, por exemplo, tem permitido uma forma de terapia eficaz.

- Nunca ouvi falar de tal.

- É natural, ainda está em crescimento.

(Silêncio)

- A meu ver, se posso fazer um reparo, a música não pode ser sentida por partes, só uma melodia gera uma reacção, não uma nota aqui, outra acolá.

(Gonçalo sorri) - Isso é relativo. Posso gostar mais duma parte, outro gostar mais doutra.

- Sim, mas só sabe qual depois de ouvir tudo.

IV. Flashback Sofia e a mãe
(Sala do piano, 9 da noite)

- Sofia, é impressão minha ou estou a ouvir um fá?

- Torna a música mais alegre se puser este acorde aqui, vês? (Exemplifica) Compara. (Toca o anterior) Assim fica melhor.

- Não se tocares tudo na íntegra. Experimenta. Outra vez...1, 2, 3.

(Piano. Ambas se sentem apaziguadas no final pelo bem-estar em que a música as deixou)

(A mãe agarra Sofia pelo queixo e olha-a nos olhos) - Todas essas notas foram aí postas por uma razão. Um compositor só pode fazer as coisas duma maneira para criar uma obra prima; sem erros de cálculo. É maravilhoso, não é? Aproveita o dom que tens e não o menosprezes, não desvies a tua atenção. Vais encontrar o tom próprio se te dedicares a fundo numa só coisa; numa só. A música é um todo, Sofia, um todo!

V. Diálogo entre Sofia e Gonçalo II

- Se puder ser...podemos experimentar aqui mesmo!

- O quê?

- É o sítio perfeito. Não tenho aqui nenhum dos aparelhos próprios mas tenho um gravador. Diz-me "bom" ou "mau" consoante a opinião. Vá lá!

(Pensa uns segundos e ri-se)

- Só vai provar o meu ponto de vista.

(Sofia tira a roupa e mergulha, acabando por boiar)

- Ok. Primeiro... este.

- Strauss. Frenético.

- Agora...que notas são?

- Dó, dó, mi.

- E então?

- Nada a assinalar.

- Que tal este?

(Sofia olha para ele)

- Gosto porque sei que é parte da 7ª de Beethoven. Não posso separar o que sei do que estou a ouvir. Não é uma opinião totalmente honesta. Está a ver?

(Gonçalo observa-a a sair da água)

- Café?

- Obrigado.

VI. Diálogo entre Sofia e Gonçalo III
(Retiro no campo - Interior, 2 da tarde)

- Deu-me uma lição à bocado hã? (Riem-se)

- Posso pedir uma coisa, Sofia?

- O que é?

(Gonçalo aponta o violoncelo e a pauta à sua frente que dançam sob o reflexo das chamas da lareira) - Toque um bocadinho para mim.

- Essa pauta não está completa.

- Porque tem andado a tocar uma pauta que não está completa?

- Não a tenho tocado. Trabalhei nela durante anos. Por isso é que vim para aqui. A Maria do Carmo achou que este (procura a palavra certa) paraíso, digamos assim, me podia ajudar a lembrar mas não consigo.

- Lembrar como se toca?

- Lembrar do resto da pauta.

- Talvez tocar ajude.

- Não a quero tocar.

- Porquê?

- Não lhe diz respeito.

- Peço desculpa... é por causa da sua mãe?

(Riem-se por ele ter voltado à carga)

- É insistente. Não, não é por causa dela.

- Então?

- Não toco... não toco porque não vou conseguir. (Esconde a cara com as mãos) Pelo menos agora.

(Gonçalo abraça-a)

VII. Reunião de professores
(Sala da Universidade, 11 da manhã)

- Meus senhores, obrigada por terem vindo, temos um assunto importante a debater.

- Como é que ela está?

- Ora bem, falei com o Gonçalo Tavares, o terapeuta e músico que a está a acompanhar, e ele diz que ela ainda não se lembra de nada. Continuamos na mesma. Por outro lado, ele próprio viu a pauta em questão e, segundo a sua opinião de especialista, trata-se duma obra realmente magnífica, ainda maior do que estávamos à espera, pelos vistos.

- Deveras? Ele tem uma cópia?

- Não conseguimos nenhuma amostra por enquanto. Só sabemos que está em vias de ficar completa e que, quando isso acontecer, esta Universidade vai ganhar reputação como nunca antes aconteceu, por isso alegrem-se, meus senhores, que já falta pouco!

- Perdão, posso apresentar uma sugestão? Podíamos abreviar ainda mais essa espera.

- Como?

- Internando-a num hospital psiquiátrico.

(Todos murmuraram em protesto)

- Isso não me parece inteligente!

- Porquê?

- Não digo que não lhe fizesse bem, enquanto pessoa com certeza, mas nós procuramos uma música certo, meus senhores? Os medicamentos muito provavelmente iam matar o génio nela.

- Talvez sim.

- Talvez não.

- Se a ajudassem a lembrar desta pauta, que mais podemos pedir?

(Todos murmuraram em concordância)

VIII. Concerto
(Auditório, 6 da tarde)

- Ordem, ordem! Não estamos a conseguir nada disto, dizer que estou desiludido convosco é dizer pouco!

- Isto é chato, professor.

- Chato? Aluno ingrato! Sabes quantos dariam uma mão para estar no lugar onde tu estás?

- Sem mão não ia conseguir tocar.

(Risos)

- Professor, dá-me licença?

- Sim, Sofia?

- Posso tentar?

- Hmmm... Pior não pode ficar. Faz favor.

- Talvez devesse tentar adaptar isto à época... Estes miúdos de hoje já não ouvem Bach, só querem rap, até rimei, viu... Tem que lhe dar um pouco de estilo. (Sofia rabisca na pauta e toma o lugar do maestro) Quero que a percussão me acompanhe, vamos a isto...

(O maestro benze-se)

(Orquestra - a adaptação agrada aos alunos)

(Palmas ressoam no auditório no final)

- Muito bem, menina!

(Gonçalo aparece inesperadamente na porta principal e com gestos pede ao homem de uniforme que o acompanha para ficar onde está)

- Sofia!

- Olá, Gonçalo! Ouviu? Foi lindo. Já tinha saudades disto.

- Preciso de falar consigo.

- Sim?

- Há uma coisa que eu não lhe disse... Os outros professores estão seriamente preocupados consigo... Pensam que o melhor será ir para uma casa de repouso... Já que se encontra frágil neste momento...

- O quê?!

- Sofia, calma. Ninguém quer o seu mal...

(Sofia começa a andar às voltas)

- E como é que eles chegaram a essa conclusão, pode-se saber?

- Eu disse-lhes que...

- Desapareça da minha vista!

- Não, espere...

- Eu desabafo consigo e, e, e... Todos aqueles sorrisos... É um mentiroso!

- Não tive nada a ver com isto... Tudo aconteceu fora do meu controle... Quando fui falar com a Maria do Carmo hoje, eles já tinham decidido.

- Tinham decidido o quê?

(Suspiro) - Sofia, está ali um homem para a levar.

(Os alunos e o maestro reclamam)

- Nada do que vocês possam fazer vai mudar nada de nada. Eu não me lembro! Não sou capaz! Vocês são ridículos... À espera que alguém traga para a vossa vida algo de mérito para poderem olhar para o espelho sem ter vergonha. Más notícias! Essa cara de desespero vai ser a única coisa que vocês vão ver!

(Sofia vai-se embora pela porta lateral)

IX. Diálogo entre Sofia e a mãe II
(Casa, 8 da noite)

- Interessante o que lhes disseste ali.

- Cala-te.

- A sério. Tendo em conta os factos.

- Estou muito interessada naquilo que vais dizer.

- Porque não havias de estar? Sou a tua mãe. As minhas palavras vão ressoar sempre dentro de ti. Olha para o que está a acontecer agora.

- Estás-te a referir ao facto de eu estar a ter um diálogo impossivel com a minha mãe morta.

- Precisamente.

- Então?

- Estava a dizer que é interessante que digas que não te lembras quando sempre te lembraste. Já agora, também há outra coisa que considero fascinante pelo intrigante que é.

- O quê?

- Estás sempre tão preocupada com o facto de eu estar aqui quando não posso estar aqui. Preocupada com os olhares que te deitam de esguelha quando falhas alguma nota desde que eu morri.

- Fala a rainha do perfeccionismo; o roto ao nu.

- Já te disse. Qual a verdadeira questão? Deixa, eu respondo a esta: porque estou aqui senão para te tranmitir que continues em frente? Andas-me a interpretar mal e a fechares-te num casulo. Recusas-te a tocar.

- Sei o que tenho a fazer.

- Então faz. Não fiques à espera. Luta pelo que tu queres.

- Quero-te de volta.

- Não podes ter isso. Que mais?

(Sofia senta-se ao violoncelo)

X. Diálogo entre Sofia e Gonçalo IV
(Hall, dez da noite muitos dias mais tarde)

- Que estás aqui a fazer?

- Vim dizer que não quero saber daqueles abutres. Nunca quis a música para nada. Tinha falado com eles antes de falarmos no auditório. Dei-lhes a minha opinião clínica - não considero que a paciente necessite de internamento. Agora como tenho mais apoio dentro da Universidade por causa do concerto ninguém pode fazer nada contra. (Pausa) E, antes que me falte a coragem, tenho que dizer outra coisa. Acho que era isso que devia ter dito da outra vez. (Pigarreia) Amo-te. Não acho que precises de ajuda de ninguém. És perfeita assim. Era isso que vinha dizer... antes de me ir embora.

- Ir embora?

- Posso fazer o projecto noutro lado. Se quiseres que vá embora.

- Não quero.

- Não?

- Não.

(Fazem amor)

(Mais tarde)

- Gonçalo, quero mostrar-te uma coisa.

(Sofia toca a pauta e quando chega ao fim toca o resto de memória)

- Vais ficar bem.

- Eu sei.