sábado, 13 de fevereiro de 2010

Incompleta

I. Diálogo entre Sofia e a mãe

(Quarto, 8 da manhã)



- O que é que estás aqui a fazer? Devias estar a trabalhar. Estás a desperdiçar o teu potencial, Sofia.



- Uma pessoa tem que descansar às vezes.



- Pensas que Mozart descansava? Ele tinha partituras completas antes dos cinco anos. Quero que toques os acordes que te pedi, vamos, mexe-te, estás aí e não fazes nada, se conseguisses acabar a sequência então podias dormir treze horas por dia! (Afasta os lençóis e Sofia assume a posição de feto) Deixas-me aqui, nem queres saber, só queres sair com os teus amigos estúpidos, esquecer tudo o que te ensinei.



- Não sou tão boa como pensas, mãe.



- Além disso o cão não pára de ganir, tem que ir à rua e está a pôr-me louca, não me deixa trabalhar.



- Hoje é terça-feira, é a tua vez.



(Sofia fica confusa)



- Hoje é terça-feira.



(Abre os olhos, está no quarto de sua casa, não no quarto da casa onde vivia com a mãe)



II. Diálogo entre Sofia e Maria do Carmo/Gonçalo entra em cena

(Corredor da Universidade, onze da manhã)



- Não compreendo os teus alunos. Não ouvem nada do que eu lhes digo. Alterei aqui esta nota mas eles não seguem a melodia. O que é que achas, querida? (Mostra-lhe a pauta) Se calhar vou pedir ao Roger para me trazer uma música diferente, não está a resultar esta.



- Nós estávamos a trabalhar numa no ano passado. (Sofia pára para pensar mas não consegue lembrar-se qual)



- Ai sim? (Faz um ar de entendimento e puxa-a pelo braço) Não te preocupes com isso. Quero que conheças uma pessoa. É um músico muito conceituado, estudou Terapia Musical e Instrumentos de Sopro e vai trabalhar connosco este semestre.



(Entram por uma porta à esquerda com um pequeno letreiro: SECRETARIA)



- Gonçalo Tavares, muito prazer. Esta é a professora Sofia Fernandes. Gonçalo, Sofia. Sofia, Gonçalo.



- Muito prazer. (Dão as mãos num passou-bem)



- A sua mãe é um ídolo para mim. Influenciou toda a minha educação musical desde os anos 80.



- Uh, obrigada.



- Daniela, já tens as fotocópias que te pedi? Sim, obrigada. Sofia... O Gonçalo vai dar aulas no auditório aos alunos dos cursos livres. Gostaria que o ajudasses num projecto muito especial. Ele depois explica-te tudo sobre isso. (Maria do Carmo puxa Gonçalo para um canto onde não podem ser ouvidos)



- Já o informaram sobre tudo, não já?



- A que se refere?



- Bom, ela sofre duma disfunção cognitiva desde a morte da mãe. Recusa acompanhamento clínico, medicamentos, hipnose... Não deve ser perturbada nem lhe é permitida a direcção da orquestra com que o Gonçalo vai trabalhar. Encontra-se a dar aulas e a participar em pesquisas e é tudo.

(Gonçalo olha para Sofia)

- Muito bem.

III. Diálogo entre Sofia e Gonçalo
(Retiro no campo - Exterior, 10 da manhã)

(Sentados ao pé da água)

- Então...Que projecto é esse?

- Basicamente, é um estudo da reacção dos alunos à música. Diferentes pessoas reagem de modo distinto a notas diferentes. Quero pô-los num ambiente tranquilo...tal e qual este... e, através de aparelhos de medição do batimento cardíaco, tensão arterial e reacção hormonal, vê-los a sentir as notas. O objectivo é saber que notas inspiram em média sentimentos negativos, sentimentos positivos... É um método que tem vindo a obter resultados interessantes em bebés, por exemplo, tem permitido uma forma de terapia eficaz.

- Nunca ouvi falar de tal.

- É natural, ainda está em crescimento.

(Silêncio)

- A meu ver, se posso fazer um reparo, a música não pode ser sentida por partes, só uma melodia gera uma reacção, não uma nota aqui, outra acolá.

(Gonçalo sorri) - Isso é relativo. Posso gostar mais duma parte, outro gostar mais doutra.

- Sim, mas só sabe qual depois de ouvir tudo.

IV. Flashback Sofia e a mãe
(Sala do piano, 9 da noite)

- Sofia, é impressão minha ou estou a ouvir um fá?

- Torna a música mais alegre se puser este acorde aqui, vês? (Exemplifica) Compara. (Toca o anterior) Assim fica melhor.

- Não se tocares tudo na íntegra. Experimenta. Outra vez...1, 2, 3.

(Piano. Ambas se sentem apaziguadas no final pelo bem-estar em que a música as deixou)

(A mãe agarra Sofia pelo queixo e olha-a nos olhos) - Todas essas notas foram aí postas por uma razão. Um compositor só pode fazer as coisas duma maneira para criar uma obra prima; sem erros de cálculo. É maravilhoso, não é? Aproveita o dom que tens e não o menosprezes, não desvies a tua atenção. Vais encontrar o tom próprio se te dedicares a fundo numa só coisa; numa só. A música é um todo, Sofia, um todo!

V. Diálogo entre Sofia e Gonçalo II

- Se puder ser...podemos experimentar aqui mesmo!

- O quê?

- É o sítio perfeito. Não tenho aqui nenhum dos aparelhos próprios mas tenho um gravador. Diz-me "bom" ou "mau" consoante a opinião. Vá lá!

(Pensa uns segundos e ri-se)

- Só vai provar o meu ponto de vista.

(Sofia tira a roupa e mergulha, acabando por boiar)

- Ok. Primeiro... este.

- Strauss. Frenético.

- Agora...que notas são?

- Dó, dó, mi.

- E então?

- Nada a assinalar.

- Que tal este?

(Sofia olha para ele)

- Gosto porque sei que é parte da 7ª de Beethoven. Não posso separar o que sei do que estou a ouvir. Não é uma opinião totalmente honesta. Está a ver?

(Gonçalo observa-a a sair da água)

- Café?

- Obrigado.

VI. Diálogo entre Sofia e Gonçalo III
(Retiro no campo - Interior, 2 da tarde)

- Deu-me uma lição à bocado hã? (Riem-se)

- Posso pedir uma coisa, Sofia?

- O que é?

(Gonçalo aponta o violoncelo e a pauta à sua frente que dançam sob o reflexo das chamas da lareira) - Toque um bocadinho para mim.

- Essa pauta não está completa.

- Porque tem andado a tocar uma pauta que não está completa?

- Não a tenho tocado. Trabalhei nela durante anos. Por isso é que vim para aqui. A Maria do Carmo achou que este (procura a palavra certa) paraíso, digamos assim, me podia ajudar a lembrar mas não consigo.

- Lembrar como se toca?

- Lembrar do resto da pauta.

- Talvez tocar ajude.

- Não a quero tocar.

- Porquê?

- Não lhe diz respeito.

- Peço desculpa... é por causa da sua mãe?

(Riem-se por ele ter voltado à carga)

- É insistente. Não, não é por causa dela.

- Então?

- Não toco... não toco porque não vou conseguir. (Esconde a cara com as mãos) Pelo menos agora.

(Gonçalo abraça-a)

VII. Reunião de professores
(Sala da Universidade, 11 da manhã)

- Meus senhores, obrigada por terem vindo, temos um assunto importante a debater.

- Como é que ela está?

- Ora bem, falei com o Gonçalo Tavares, o terapeuta e músico que a está a acompanhar, e ele diz que ela ainda não se lembra de nada. Continuamos na mesma. Por outro lado, ele próprio viu a pauta em questão e, segundo a sua opinião de especialista, trata-se duma obra realmente magnífica, ainda maior do que estávamos à espera, pelos vistos.

- Deveras? Ele tem uma cópia?

- Não conseguimos nenhuma amostra por enquanto. Só sabemos que está em vias de ficar completa e que, quando isso acontecer, esta Universidade vai ganhar reputação como nunca antes aconteceu, por isso alegrem-se, meus senhores, que já falta pouco!

- Perdão, posso apresentar uma sugestão? Podíamos abreviar ainda mais essa espera.

- Como?

- Internando-a num hospital psiquiátrico.

(Todos murmuraram em protesto)

- Isso não me parece inteligente!

- Porquê?

- Não digo que não lhe fizesse bem, enquanto pessoa com certeza, mas nós procuramos uma música certo, meus senhores? Os medicamentos muito provavelmente iam matar o génio nela.

- Talvez sim.

- Talvez não.

- Se a ajudassem a lembrar desta pauta, que mais podemos pedir?

(Todos murmuraram em concordância)

VIII. Concerto
(Auditório, 6 da tarde)

- Ordem, ordem! Não estamos a conseguir nada disto, dizer que estou desiludido convosco é dizer pouco!

- Isto é chato, professor.

- Chato? Aluno ingrato! Sabes quantos dariam uma mão para estar no lugar onde tu estás?

- Sem mão não ia conseguir tocar.

(Risos)

- Professor, dá-me licença?

- Sim, Sofia?

- Posso tentar?

- Hmmm... Pior não pode ficar. Faz favor.

- Talvez devesse tentar adaptar isto à época... Estes miúdos de hoje já não ouvem Bach, só querem rap, até rimei, viu... Tem que lhe dar um pouco de estilo. (Sofia rabisca na pauta e toma o lugar do maestro) Quero que a percussão me acompanhe, vamos a isto...

(O maestro benze-se)

(Orquestra - a adaptação agrada aos alunos)

(Palmas ressoam no auditório no final)

- Muito bem, menina!

(Gonçalo aparece inesperadamente na porta principal e com gestos pede ao homem de uniforme que o acompanha para ficar onde está)

- Sofia!

- Olá, Gonçalo! Ouviu? Foi lindo. Já tinha saudades disto.

- Preciso de falar consigo.

- Sim?

- Há uma coisa que eu não lhe disse... Os outros professores estão seriamente preocupados consigo... Pensam que o melhor será ir para uma casa de repouso... Já que se encontra frágil neste momento...

- O quê?!

- Sofia, calma. Ninguém quer o seu mal...

(Sofia começa a andar às voltas)

- E como é que eles chegaram a essa conclusão, pode-se saber?

- Eu disse-lhes que...

- Desapareça da minha vista!

- Não, espere...

- Eu desabafo consigo e, e, e... Todos aqueles sorrisos... É um mentiroso!

- Não tive nada a ver com isto... Tudo aconteceu fora do meu controle... Quando fui falar com a Maria do Carmo hoje, eles já tinham decidido.

- Tinham decidido o quê?

(Suspiro) - Sofia, está ali um homem para a levar.

(Os alunos e o maestro reclamam)

- Nada do que vocês possam fazer vai mudar nada de nada. Eu não me lembro! Não sou capaz! Vocês são ridículos... À espera que alguém traga para a vossa vida algo de mérito para poderem olhar para o espelho sem ter vergonha. Más notícias! Essa cara de desespero vai ser a única coisa que vocês vão ver!

(Sofia vai-se embora pela porta lateral)

IX. Diálogo entre Sofia e a mãe II
(Casa, 8 da noite)

- Interessante o que lhes disseste ali.

- Cala-te.

- A sério. Tendo em conta os factos.

- Estou muito interessada naquilo que vais dizer.

- Porque não havias de estar? Sou a tua mãe. As minhas palavras vão ressoar sempre dentro de ti. Olha para o que está a acontecer agora.

- Estás-te a referir ao facto de eu estar a ter um diálogo impossivel com a minha mãe morta.

- Precisamente.

- Então?

- Estava a dizer que é interessante que digas que não te lembras quando sempre te lembraste. Já agora, também há outra coisa que considero fascinante pelo intrigante que é.

- O quê?

- Estás sempre tão preocupada com o facto de eu estar aqui quando não posso estar aqui. Preocupada com os olhares que te deitam de esguelha quando falhas alguma nota desde que eu morri.

- Fala a rainha do perfeccionismo; o roto ao nu.

- Já te disse. Qual a verdadeira questão? Deixa, eu respondo a esta: porque estou aqui senão para te tranmitir que continues em frente? Andas-me a interpretar mal e a fechares-te num casulo. Recusas-te a tocar.

- Sei o que tenho a fazer.

- Então faz. Não fiques à espera. Luta pelo que tu queres.

- Quero-te de volta.

- Não podes ter isso. Que mais?

(Sofia senta-se ao violoncelo)

X. Diálogo entre Sofia e Gonçalo IV
(Hall, dez da noite muitos dias mais tarde)

- Que estás aqui a fazer?

- Vim dizer que não quero saber daqueles abutres. Nunca quis a música para nada. Tinha falado com eles antes de falarmos no auditório. Dei-lhes a minha opinião clínica - não considero que a paciente necessite de internamento. Agora como tenho mais apoio dentro da Universidade por causa do concerto ninguém pode fazer nada contra. (Pausa) E, antes que me falte a coragem, tenho que dizer outra coisa. Acho que era isso que devia ter dito da outra vez. (Pigarreia) Amo-te. Não acho que precises de ajuda de ninguém. És perfeita assim. Era isso que vinha dizer... antes de me ir embora.

- Ir embora?

- Posso fazer o projecto noutro lado. Se quiseres que vá embora.

- Não quero.

- Não?

- Não.

(Fazem amor)

(Mais tarde)

- Gonçalo, quero mostrar-te uma coisa.

(Sofia toca a pauta e quando chega ao fim toca o resto de memória)

- Vais ficar bem.

- Eu sei.

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